"O amor quer o monopólio das faculdades da alma." Schiller

domingo, 5 de dezembro de 2010

A MÁSCARA

Contempla esse perfil de graças florentinas;

Na sóbria ondulação do corpo musculoso

Excedem Força e Proporção, irmãs divinas.

Essa mulher, fração de um ser miraculoso,

Divinamente forte, amavelmente pobre,

Criada foi para no leito arder em gozo,

Saciando os ócios de um pontífice ou de um nobre.

- Repara-lhe o sorriso fino e voluptuoso

onde a vaidade aflora e em êxtase perdura;

Esse lânguido olhar oblíquo e desdenhoso,

Esse rosto sutil, na gaze da moldura,
Cujos traços nos dizem com ar vitorioso:

"A Volúpia me chama e o Amor cinge-me a testa!"

Ao ser que esplende assim com lúbrica realeza

Vê que encanto febril a formosura empresta!

Chega mais próximo e circunda-lhe a beleza.

Ó que blasfêmia da arte! Ó que assombro fatal!

A divina mulher, que ao prazer nos enlaça,

Lá no alto se transmuda em monstro bifrontal!

- Não! É uma máscara, uma sórdida trapaça,

Essa face torcida e de esquisito aspecto,

E, repara, também crispada ferozmente,

A cabeça concreta, o rosto circunspecto

Oculto por detrás do semblante que mente.

Ó mísera beleza! O magnífico rio

De teu pranto deságua ao pá de meus abrolhos;

Teu embuste me embriaga, e minha alma sacio

Nessas ondas que a Dor faz jorrar de teus olhos!

Mas por que chora enfim a beleza absoluta

Que a seus pés tem o ser humano submetido,

Que misterioso mal lhe rói o flanco em luta?

- Ela chora, insensata, por haver vivido!

E por viver ainda! E o que ela mais deplora,

O que a faz ajoelhar-se em frêmito feroz,

É que amanhã há de estar viva como agora!

Amanhã e depois e sempre! - como nós!
 
 
 
UMA CARNIÇA

Lembra-te, meu amor, do objeto que encontramos

Numa bela manhã radiante:

Na curva de um atalho, entre calhaus e ramos,

Uma carniça repugnante.

As pernas para cima, qual mulher lasciva,

A transpirara miasmas e humores,

Eis que as abria desleixada e repulsiva,

O ventre prenhe de livores.

Ardia o sol naquela pútrida torpeza,

Como a cozê-la em rubra pira

E para o cêntuplo volver à Natureza

Tudo o que ali ela reunira.

E o céu olhava do alto a esplêndida carcaça

Como uma flor a se entreabrir.

O fedor era tal que sobre a relva escassa

Chegaste quase a sucumbir.

Zumbiam moscas sobre o ventre e, em alvoroço,

Dali saíam negros bandos

De larvas, a escorrer como um líquido grosso

Por entre esses trapos nefandos.

E tudo isso ia e vinha, ao modo de uma vaga,

Que esguichava a borbulhar,

Como se o corpo, a estremecer de forma vaga,

Vivesse a se multiplicar.

E esse mundo emitia uma bulha esquisita,

Como vento ou água corrente,

Ou grãos que em rítmica cadência alguém agita

E à joeira deixa novamente.

As formas fluíam como um sonho além da vista,

Um frouxo esboço em agonia,

Sobre a tela esquecida, e que conclui o artista

Apenas de memória um dia.

Por trás das rochas, irrequieta, uma cadela

Em nós fixava o olho zangado,

Aguardando o momento de reaver àquela

Carniça abjeta o seu bocado.

- Pois há de ser como essa coisa apodrecida,

Essa medonha corrupção,

Estrela de meus olhos, sol da minha vida,

Tu, meu anjo e minha paixão!

Sim! Tal serás um dia, ó deusa da beleza,

Após a bênção derradeira,

Quando, sob a erva e as florações da natureza,

Tornares afinal à poeira.

Então, querida, dize à carne que se arruína,

Ao verme que te beija o rosto,

Que eu preservarei a forma e a substância divina

De meu amor já decomposto!
 
 
 
UM FANTASMA

I - AS TREVAS

Nos porões de tristeza impenetrável

Onde o Destino um dia me esqueceu;

Onde jamais um róseo raio ardeu,

Só com a noite, hospedeira intratável,

Sou qual pintor que um Deus, por diversão,

Na treva faz mover os seus pincéis,

Ou cozinheiro de apetites cruéis

Que assa e devora o próprio coração.

Súbito brilha e faz-se ali presente

Fantasma esplêndido e de graça extrema

Em oriental postura evanescente.

Ao atingir a perfeição suprema,

Nela percebo a bela visitante:

Ei-la! Negra e contudo fulgurante.
 
 
 
IV - O RETRATO

A Doença e a Morte tornam cinza todo

Aquele fogo que por nós ardeu.

Dos olhos a me olhar daquele modo,

Da boca onde meu ser se dissolveu,

Dos beijos sempre fiéis a uma ordem dada,

Dos êxtases mais vivos que fulgores,

Que resta? É horrível, ó minha alma! Nada

Mais que um pálido esboço de três cores

Que se extingue, como eu, na solitude,

E que o Tempo, sem pressa e em toda a parte,

Vai roçando com asa amarga e rude...

Negro assassino da Vida e da Arte,

Jamais hás de matar-me na memória

A que foi meu prazer e minha glória!
 
 
 
O IRREPARÁVEL

I

Como abafar este Remorso interminável,

Que vive, se enrosca e se agita,

E se nutre de nós como um verme insaciável,

Qual do carvalho o parasita?

Como abafar este Remorso inexorável?

Em que filtro, em que vinho, em que amarga tisana

Afogar tal praga inimiga,

Gulosa e predatória como uma mundana,

Paciente como uma formiga?

Em que filtro? - em que vinho? - em que amarga tisana?

Ah, dize, ó feiticeira! Dize, se és capaz,

A esta alma que o tormento assola,

Como a de quem, em meio aos que agonizam, jaz

E o casco do cavalo esfola,

Ó bela feiticeira! Ah, dize, se és capaz,

Ao moribundo a quem o lobo já fareja

E a gula do corvo amortalha,

A este soldado que, batido, ainda peleja

Por uma tumba e uma medalha;

O moribundo a quem o lobo já fareja!

Como clarear um céu ao sol indiferente,

Rasga-lhe as trevas em cortejo,

Mais densas do que o breu, sem aurora e sem poente,

Sem astro ou fúnebre lampejo?

Como clarear um céu ao sol indiferente?

A esperança que luz nos vidros da Estalagem

Desfez-se em meio ao torvelinho!

Sem raios nem luar, onde achar-se hospedagem

Aos mártires de um mau caminho?

Satã tudo extinguiu nos vidros da estalagem!

Amável feiticeira, adoras os danados?

Conhece o que nunca é salvo?

Conheces do Remorso os dardos aguçados?

Que o coração nos fazem de alvo?

Amável feiticeira, adora os danados?

O Irreparável rói com a presa maldita

Nossa lama, indigno monumento,

E muita vez ataca, assim côo a térmita,

O prédio por seu fundamento.

O irreparável rói com a presa maldita;
 
 
 
O MORTO ALEGRE

Na planície em que o lento caracol vagueia,

Quero eu mesmo cavar um buraco bem fundo,

Onde possam meus ossos repousar na areia,

Como a esqualo a dormir no pélago profundo.

Odeio o testamento e a tumba me nauseia;

Ao invés de implorar uma lágrima ao mundo,

Prefiro em vida dar aos corvos como ceia

Os trapos que me pendem do esqueleto imundo.

Ó vermes! Vós a que não chegam luz ou ruído,

Eis que vos toca um morto alegre e destemido;

Filhos da podridão, demiurgos do artifício,

Vinde pois sem remorso ungir-me os membros tortos,

E dizei-me depois se resta algum suplício

A este corpo sem alma e morto dentre os mortos!
 
 
 
BRUMAS E CHUVAS

Ó inverno, ó fim de outono, ó primavera em lama,

Dormidas estações! A minha alma vos ama

Por cobrirdes-me assim cérebro e coração

De sudário brumal, de tumba e de ilusão.

Nesta grande planura em que o Astro se derrama,

Noite em que o cata-vento é uma voz rouca r brama,

A minha alma, melhor que na morna estação,

Suas asas de corvo abrirá na amplidão.

Por certo ao coração, todo coisas esquálidas,

Sobre quem desce há muito o frio das nevadas,

Rainhas da atmosfera, ó estações descoradas,

Nada é mais doce que as vossas trevas tão pálidas,

Se a dois e dois por noite, após um triste ocaso,

Dormimos nossa dor por um leito de acaso.
 
 
A DESTRUIÇÃO

Sem cessar, ao meu lado, o Demônio arde em vão;

Nada em torno de mim como um ar vaporoso;

Eu degluto-o e sinto-o, a queimar-me o pulmão,

Enchendo-o de um desejo eterno e criminoso.

Toma, ao saber o meu amor à fantasia,

A forma da mulher, que eu mais espere e ame,

E tendo sempre um ar de pura hipocrisia,

Acostuma-me a boca a haurir um filtro infame.

Longe do olhar de Deus ele conduz-me assim,

Quebrado de fadiga e numa ânsia sem fim,

Às planícies do tédio, infinitas, desertas,

E atira aos olhos meus, cheios de confusão,

Ascorosos rasgões e feridas abertas,

E os aparelhos a sangrar da Destruição!
 
 
 
A FONTE DE SANGUE

Tenho a impressão de que meu sangue em onda escorre,

Rítmico soluçar de nascente que morre.

Ouço-o bem a escorrer num murmúrio de vaga,

Mas eu tateio em vão à procura da chaga.

Através da cidade, e pelas estacadas,

Faz as ilhas nascer por todas as calçadas,

Desalterando a sede a cada criatura

O seu fluxo que sempre o universo púrpura.

Muitas vezes pedi a vinhos de prazer

Adormecerem só um dia o horror que mina;

O vinho aguça o olhar e torna a audição fina!

Eu procurei no amor um sono de esquecer;

E é-me somente o amor um colchão de punhais

Em que eu dou de beber às amadas fatais!
 
 
 
O AMOR E O CRÂNIO

O amor sobre o crânio assentado

Desta humanidade,

E sobre o trono o descarado,

A rir de maldade,

Bolhas redondas vai jocundo

Soprando pelo ar,

Como se ao mais longínquo mundo

Quisessem chegar.

O globo lúcido se espalma

E vertigem grande,

Rompe e escarra a sua fina alma,

Sonho áureo se expande.

A cada bolha o crânio é voz

Gemente a rezar:

- "Esta brincadeira feroz

Quando irá acabar?"

"Pois o que o teu lábio ferino

Joga pelo ar langue

Meu cérebro é, monstro assassino,

Meu peito e meu sangue!"
 
 
C.B.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A Canção do Suicida


Só mais um momento.

Que voltem sempre a cortar-me

a corda.

Há pouco estava tão preparado

e havia já um pouco de eternidade

nas minhas entranhas.


Estendem-me a colher,

esta colher de vida.

Não, quero e já não quero,

deixem-me vomitar sobre mim.


Sei que a vida é boa

e que o mundo é uma taça cheia,

mas a mim não me chega ao sangue,

a mim só me sobe à cabeça.


Aos outros alimenta-os, a mim põe-me doente;

compreendei que há quem a despreze.

Durante pelo menos mil anos

preciso agora fazer dieta.




“Tem paciência com tudo não resolvido em teu coração e tenta amar as perguntas em ti, como se fossem quartos trancados ou livros escritos em idioma estrangeiro. Não pesquises em busca de respostas que não te podem ser dadas, porque tu não as podes viver, e trata-se de viver tudo. Vive as grandes perguntas agora. Talvez, num dia longínquo, sem o perceberes, te familiarizes com a resposta.”


A Pantera

No Jardin des Plantes, Paris


De tanto olhar as grades seu olhar

esmoreceu e nada mais aferra.

Como se houvesse só grades na terra:

grades, apenas grades para olhar.



A onda andante e flexível do seu vulto

em círculos concêntricos decresce,

dança de força em torno a um ponto oculto

no qual um grande impulso se arrefece.



De vez em quando o fecho da pupila

se abre em silêncio. Uma imagem, então,

na tensa paz dos músculos se instila

para morrer no coração.


"Quero viver como se o meu tempo fosse ilimitado. Quero me recolher, me retirar das ocupações efêmeras. Mas ouço vozes, vozes benevolentes, passos que se aproximam e minhas portas se abrem..."


O Solitário

Não: uma torre se erguerá do fundo

do coração e eu estarei à borda:

onde não há mais nada, ainda acorda

o indizível, a dor, de novo o mundo.



Ainda uma coisa, só, no imenso mar

das coisas, e uma luz depois do escuro,

um rosto extremo do desejo obscuro

exilado em um nunca-apaziguar,



ainda um rosto de pedra, que só sente

a gravidade interna, de tão denso:

as distâncias que o extinguem lentamente

tornam seu júbilo ainda mais intenso.


"Se o cotidiano lhe parece pobre, não o acuse: acuse-se a si próprio de não ser muito poeta para extrair as suas riquezas."



Dia de Outono


Senhor: é mais que tempo. O verão foi muito intenso.

Lança a tua sombra sobre os relógios de sol

e por sobre as pradarias desata os teus ventos.



Ordena às últimas frutas que fiquem maduras,

dá-lhes ainda mais uns dois dias de calor,

leva-as à completude e não deixes de pôr

no vinho pesado sua última doçura.



Quem não tem casa não a irá mais construir.

Quem está sozinho vai ficá-lo ainda mais.

Insone, há de ler, escrever cartas torrenciais

e correr as aléias num inquieto ir-e-vir

enquanto o vento carrega as folhas outonais.


Solidão

A solidão é como uma chuva.

Ergue-se do mar ao encontro das noites;

de planícies distantes e remotas

sobe ao céu, que sempre a guarda.

E do céu tomba sobre a cidade.


Cai como chuva nas horas ambíguas,

quando todas as vielas se voltam para a manhã

e quando os corpos, que nada encontraram,

desiludidos e tristes se separam;

e quando aqueles que se odeiam

têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios...


“Faz-se cada vez mais raro o desejo de ter uma morte particular. Mais um pouco, e será tão raro quanto ter uma vida particular. Meu Deus: tudo isso está aí. A gente chega, encontra a vida pronta, basta vesti-la.”
 
 
O Homem que Lê


Eu lia há muito. Desde que esta tarde

com o seu ruído de chuva chegou às janelas.

Abstraí-me do vento lá fora:

o meu livro era difícil.

Olhei as suas páginas como rostos

que se ensombram pela profunda reflexão

e em redor da minha leitura parava o tempo. —

De repente sobre as páginas lançou-se uma luz

e em vez da tímida confusão de palavras

estava: tarde, tarde... em todas elas.

Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já

as longas linhas, e as palavras rolam

dos seus fios, para onde elas querem.

Então sei: sobre os jardins

transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;

o sol deve ter surgido de novo. —

E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:

o que está disperso ordena-se em poucos grupos,

obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas

e estranhamente longe, como se significasse algo mais,

ouve-se o pouco que ainda acontece.



E quando agora levantar os olhos deste livro,

nada será estranho, tudo grande.

Aí fora existe o que vivo dentro de mim

e aqui e mais além nada tem fronteiras;

apenas me entreteço mais ainda com ele

quando o meu olhar se adapta às coisas

e à grave simplicidade das multidões, —

então a terra cresce acima de si mesma.

E parece que abarca todo o céu:

a primeira estrela é como a última casa.



“Versos não são, como as pessoas imaginam, sentimentos --são experiências. E por causa de um verso é preciso ver muitas cidades, pessoas e coisas, é preciso conhecer bichos, é preciso sentir como voam os pássaros, e saber com que gestos flores diminutas se abrem ao amanhecer.”




Recordação


E tu esperas, aguardas a única coisa

que aumentaria infinitamente a tua vida;

o poderoso, o extraordinário,

o despertar das pedras,

os abismos com que te deparas.



Nas estantes brilham

os volumes em castanho e ouro;

e tu pensas em países viajados,

em quadros, nas vestes

de mulheres encontradas e já perdidas.



E então de súbito sabes: era isso.

Ergues-te e diante de ti estão

angústia e forma e oração

de certo ano que passou.

    
                                                                      Rainer Maria Rilke






domingo, 10 de outubro de 2010

VALOR. - E.W.

Nada tocam teus dedos finos,

Nada imploram teus lábios frios.

Teus pés já cansados, calejados,

Dos círculos, o fim é o início.


O tempo passa, os rostos ficam

A saudade é o alimento, amam

Os que ficam e que vão,

Lágrimas por quem foi envão.


A natureza do homem de alma negra

É límpida falsa água, luz negra.

A escuridão dos bons que lutam,

As mães que ficam e os filhos órfãos.


Sorrir em meio a guerra, suprema

A vida que corre em meio as vêias.

A angústia que sobra, na interna

Dúvida de nossa falta de fé.


Homens de um século descrente,

Serão vós sábios ou outra vez

Centenas de homens manipulados?

Terão vós vontade de sobrevivencia?


O suficiente para continuar e lutar.

Sob paus e pedras, em toda direção,

Vidro ensangüentado pelo chão.

Homem sábio de que te vale viver?


O que tens nas mãos não te dará eternidade,

Mas os teus ideais, a glória alcançada

Não termina em tua morte, em tua queda.

As lágrimas podem ser dolorosas,


Por que amor resulta a saudade,

Mas tudo que é puro e real

Perdura por toda a eternidade.

Multiplica teu valor, HONRA-TE!














Rosa - E.W.

Eu não serei, jamais a tua rosa colorida

Que os insetos vêem polinizar.

Eu não serei a fonte do teu perfume,

Nem mil botões irão te agradar.


Claros teus olhos irão observar

Que de todas as rosas sou única,

Meu caule não pode se quebrar.


Mas eu serei a mais resistente,

Nestes dias de longas chuvas,

Dias de sol e tempo quente.


Por que eu nasci no solo mais instável,

Menos preparado, mais atacado.

Sem botões nem ramos, a rosa estéril.


A rosa poeta, eu sou a rosa que te cala.








terça-feira, 5 de outubro de 2010

Holocausto verdadeiro é escondido

Por aqueles focados no capital

Nas pessoas inocentes, causando o mal

De seus corações,o amor é banido



Palestinos com corações destruídos

Para os destruidores, ferir é normal

Acabar com a dignidade é fatal

Alegram-se em ver corpos doloridos



Aos muçulmanos, bastam os sofrimentos

De ver seus irmãos naqueles tormentos

Muitos sonhando e rezando pelo fim



Deus, conceda-lhes o paraíso eterno

Aos sujos de alma, lançai-os no inferno

Sabemos que haverá justiça enfim

domingo, 26 de setembro de 2010

The texture of the soul is a liquid that casts a vermilion flood

From a wound carved as an oath;
it fills the river bank a sanguine fog

These arms were meant to be lost!
Hacked, severed and forgotten

The texture of time is a whisper that echoes across the flood

It's hymn resonates from tree to tree,
through every sullen bough it sings

These boughs were said to be lost!
Torn, unearthed and broken

Earth to flesh, flesh to wood,
cast these limbs into the water

Flesh to wood, wood to stone,
cast this stone into the water...

 
(A textura da alma é um liquido que derrama um fluido avermelhado

de uma ferida entalhada como um juramento;
ela completa a margem com uma névoa sanguinea.

Estes braços foram ditos perdidos!
Golpeados, machucados e esquecidos.

A textura do tempo é um sussuro que ecoa atráves desse fluido

Seu hino ressoa de árvore a árvore,
através de cada ramo tristonho ele é cantado.

Estes ramos foram ditos perdidos!
Feridos, arrancados e quebrados.

Da terra à carne, da carne à madeira,
estes ramos são jogados na água

Da carne à madeira, da madeira para a pedra,
esta pedra é jogada na água)


Letra da música Limbs, Agalloch




Welch gramvoll Pein

verwies mich meinen Pfaden,

als morgendunstge Schwaden,

noch ruhten im verschneiten Hain.



In weit erstarrter Heide,

lang schwand die alte Leite,

wohin noch schweifet der Blick,

führt kein Umkehr zurück.



Überwunden ist nun Dunkelheit,

nach langem Weg in Einsamkeit.

Von unberührtem Stege

folget leis und dicht -

des Mondes fahles Licht,

zum Ende aller Wege.


Letra da música Fortgang, Empyrium

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Nur wer die Sehnsucht kennt - Goethe


Nur wer die Sehnsucht kennt,
Weiss,was ich leide!
Allein und abgetrennt
Von aller Freude,
Seh ich ans Firmament
Nach jener Seite.

Ach!der mich liebt und kennt
Ist in der Weite.
Es scwwindelt mir,es brennt
Mein Eigenweide.
Nur wer die Sehnsucht kennt,
Weiss,was ich leide!

Algumas obras de Olavo Bilac

"Dizem todos: “Outrora como as aves
Inquieta, como as aves tagarela,
E hoje... que tens? Que sisudez revela
Teu ar! que idéias e que modos graves!
 
Que tens, para que em pranto os olhos laves?
Sê mais risonha, que serás mais bela!”
Dizem. Mas no silêncio e na cautela
Ficas firme e trancada a sete chaves...
 
E um diz: “Tolices, nada mais!” Murmura
Outro: “Caprichos de mulher faceira!”
E todos eles afinal: “Loucura!”
 
Cegos que vos cansais a interrogá-la!
Vê-la bastava; que a paixão primeira
Não pela voz, mas pelos olhos fala."


"De outras sei que se mostram menos frias,
Amando menos do que amar pareces.
Usam todas de lágrimas e preces:
Tu de acerbas risadas e ironias.
 
De modo tal minha atenção desvias,
Com tal perícia meu engano teces,
Que, se gelado o coração tivesses,
Certo, querida, mais ardor terias.
 
Olho-te: cega ao meu olhar te fazes...
Falo-te – e com que fogo a voz levanto! –
Em vão... Finges-te surda às minhas frases...
 
Surda: e nem ouves meu amargo pranto!
Cega: e nem vês a nova dor que trazes
À dor antiga que doía tanto!"


"Olha-me! O teu olhar sereno e brando
Entra-me o peito, como um largo rio
De ondas de ouro e de luz, límpido, entrando
O ermo de um bosque tenebroso e frio.
 
Fala-me! Em grupos doudejantes, quando
Falas, por noites cálidas de estio,
As estrelas acendem-se, radiando,
Altas, semeadas pelo céu sombrio.
 
Olha-me assim! Fala-me assim! De pranto
Agora, agora de ternura cheia,
Abre em chispas de fogo essa pupila...
 
E enquanto eu ardo em sua luz, enquanto
Em seu fulgor me abraso, uma sereia
Soluce e cante nessa voz tranqüila!"


"Ontem – néscio que fui! - maliciosa
Disse uma estrela, a rir, na imensa altura:
“Amigo! uma de nós, a mais formosa
De todas nós, a mais formosa e pura,
 
Faz anos amanhã... Vamos! procura
A rima de ouro mais brilhante, a rosa
De cor mais viva e de maior frescura!”
E eu murmurei comigo: “Mentirosa!”
 
E segui. Pois tão cego fui por elas,
Que, enfim, curado pelos seus enganos,
Já não creio em nenhuma das estrelas...
 
E – mal de mim! – eis-me, a teus pés, em pranto...
Olha: se nada fiz para os teus anos,
Culpa as tuas irmãs que enganam tanto!"


                                                         
                                                           A um poeta
 "Leio-te: - o pranto dos meus olhos rola:
- Do seu cabelo o delicado cheiro,
Da sua voz o timbre prazenteiro,
Tudo do livro sinto que se evola...

Todo o nosso romance: - a doce esmola
Do seu primeiro olhas, o seu primeiro
Sorriso, - neste poema verdadeiro,
Tudo ao meu triste olhar se desenrola.
 
Sinto animar-se todo o meu passado:
E quanto mais as páginas folheio,
Mais vejo em tudo aquele vulto amado.
 
Ouço junto de mim bater-lhe o seio,
E cuido vê-la, plácida, a meu lado,
Lendo comigo a página que leio."



domingo, 12 de setembro de 2010

The Blue Mists Of Night (As Névoas Azuis da Noite)

...and many a moon shall rise...
and lead me into the cold embrace of the night
Here we drown in our grief, drown in an absence of light.
Here is no shelter; no escape from our heart.
Entwined in this tragic embrace I fear and bemourn to depart.

When the shadows fall, and the sun sets in us all...

Just silent hopes remain and the aching grief that grows into abottomless vale I fall
O, I give myself away... Away!
Far away!
To this dim and misty place.

My heart reflects the night...
Languid moonshine I bath my skin in thee
O may thy beauty be revealed in me.
Silent winds, whisper to me thy songs of solitude and joy


Tradução

... E a muitos uma lua se erguerá...
E me guiará rumo ao frio abraço da noite
Aqui nós nos afogamos em nossa aflição
Afogamos numa abstenção de luz
Aqui não há proteção
Sem escapatória do nosso coração
Enlaçados nesse abraço trágico
Eu temo e me enluto por partir


Quando as sombras caírem
E o sol se pôr em cada um de nós...


Só restam esperanças silentes
E uma dolorosa aflição que cresce
Num vale infinito eu caio
Oh, assim eu me entrego...
Distante! Muito distante!
Deste lugar sombrio e nebuloso
Meu coração reflete a noite...


Lânguido brilho lunar, eu banho minha pele em ti
Oh! Possa vossa beleza ser revelada em mim.
Ventos silenciosos suspiram para mim
Vossas canções de solidão e diversão...


Letra de músida da banda alemã Empyrium.

domingo, 29 de agosto de 2010

Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos. 2 fevereiro 1911.

Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto rubro de carne agonizante,
Filho da grande força fecundante
De minha brônzea trama neuronial,

Que poder embriológico fatal
Destruiu, com a sinergia de um gigante,
Em tua morfogênese de infante
A minha morfogênese ancestral?!

Porção de minha plásmica substância,
Em que lugar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?!

Ah! Possas tu dormir, feto esquecido,
Panteisticamente dissolvido
Na noumenalidade do NÃO SER!



AUGUSTO DOS ANJOS